As Escrituras, por toda parte, nos dissuadem de toda e qualquer confiança quando ensinam que todas as nossas justiças exalam mal cheiro à vista de Deus, salvo se derivarem perfume da inocência de Cristo; que nada podem senão exacerbar a vingança de Deus, a não ser que sejam mantidas na indulgência de sua misericórdia.
De fato, dessa forma nada mais nos resta fazer, senão implorarmos a nosso juiz, com aquela confissão de Davi: Ninguém será justificado diante dele, caso exija conta de seus servos [Sl 143.2]. Onde, porém, Jó diz: “Se agi como um ímpio, ai de mim; mas, se agi justamente, nem assim levantarei a cabeça”[Jó 10.15], ainda que vise àquela suprema justiça de Deus, à qual nem mesmo os anjos satisfazem, entretanto isso ele mostra, ao mesmo tempo: quando, ante o juízo de Deus, nada se vê restar a todos os mortais senão que emudeçam...
O Apóstolo testifica que a causa final é não só a manifestação da justiça divina, como também o louvor de sua bondade..
Pois assim fala aos romanos: “Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus; porém são justificados gratuitamente por sua graça”[Rm 3.23, 24]. Aqui tens a cabeça e a fonte primeira da salvação: que Deus nos abraçou com sua graciosa misericórdia. Segue-se: “pela redenção que há em Cristo Jesus”[Rm 3.24]: aqui tens como que a matéria pela qual a justiça nos é consumada; “pela fé em seu sangue”[Rm 3.25]: aqui se mostra a causa instrumental, mercê da qual a justiça de Cristo nos é aplicada.
Por último, acrescenta o fim quando diz: “para demonstração de sua justiça, para que ele seja justo e justificador daquele que é da fé em Cristo”[ Rm 3.26]. E para que, de passagem, também denote que esta justiça consiste em reconciliação, diz expressamente: Cristo nos foi dado para nossa reconciliação.
- João Calvino.
(Fonte: Calvino, João. As Institutas ou Tratados da Religião Cristã - Edição clássica (latim), volume 3. In: Cap. XIV, sub 11,16,17. Ebook Kindle Edition.)
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